Sexta-feira, 26 de dezembro de 2025
Há quase vinte anos, em uma feira de vinhos, degustei os meus primeiros vinhos do Priorato: Clos Erasmus, Clos Figueras e Clos Mogador. Até então mal havia ouvido falar dessa inóspita região localizada ao sudoeste de Barcelona, Catalunha, na província de Tarragona, um verdadeiro tesouro do vinho espanhol.
Desde então, tendo o Priorato no meu “eno-radar”, sempre ao me deparar com um vinho da região, degustava e/ou comprova uma garrafa.
Certa vez, em 2011, em uma viagem aos Estados Unidos, comprei algumas do Clos Mogador 2006, que fui degustando ao longo dos anos (a última em 2023, e estava esplêndida), até que este ano consegui finalmente visitar o Priorato, que se tornou ao longo dos anos uma das minhas regiões vitivinícolas preferidas.
A região produtora de vinhos do Priorato (Priorat em catalão), juntamente com a Rioja, detém, desde 2009, o nível mais alto das apelações de origem espanholas, qual seja, Denominación de Origen Calificada (DOCa), ou, em catalão, Denominació d’Origen Qualificada (DOQ), produzindo alguns dos vinhos mais incríveis do mundo.
Para se chegar a tal subcategoria, a região deve ter mantido o status de Denominación de Origen (DO) por um mínimo de dez anos e os vinhos devem ser produzidos e engarrafados dentro da região. Há ainda um outro critério: os vinhos devem, em média, custar pelo menos o dobro da média nacional dos preços de vinhos DO.
A região do Priorat tem uma história marcada por diferentes povos e culturas. Inicialmente, tribos locais ocupavam o território, seguidas pelos Fenícios e Gregos, que trouxeram influências comerciais e culturais.
Mais tarde, os Romanos construíram a famosa “Via Augusta”, consolidando sua presença. Após a queda do Império Romano, vieram os Visigodos, seguidos pelos Mouros, que dominaram a Península Ibérica por séculos.
Com a Reconquista, os Francos e os Cristãos retomaram o controle, e a região passou a integrar os domínios dos reinos de Aragão e, depois, da Catalunha.
No século XII, os monges cartuxos se estabeleceram na região fundando a Cartoixa d’Escaladei. Os monges receberam aquela região inóspita de Afonso II de Aragón, também Conde de Barcelona. Os monges cartuxos tinham jurisdição sobre os povoados locais, dando origem ao nome Priorat, derivado de “Prior”, o líder dos monges. Foram eles os responsáveis por introduzir e cultivar as primeiras vinhas na região, estabelecendo a base da tradição vitivinícola local.
Do século XV ao XVIII, a Catalunha viveu um período de busca por autonomia, alternando entre a influência da monarquia espanhola e da francesa.
Já nos séculos XVIII e XIX, o Priorato se consolidou como um importante polo de produção, com grandes exportações de vinho para diversos mercados.
No século XX, no entanto, a região enfrentou um êxodo populacional para as cidades, o que levou ao abandono de muitos vinhedos. Apesar disso, em 1932, o Priorat conquistou o status de Denominação de Origem (DO), reconhecendo a qualidade de seus vinhos.
A década de 1980 marcou uma virada com a chegada à região dos chamados “Cinco Magníficos” ou “Gangue dos Cinco” — René Barbier (Clos Mogador), Álvaro Palacios, Daphne Glorian (Clos Erasmus), Josep Luís Pérez (Mas Martinet) e Carlos Pastrana (Clos l’Obac) — que revolucionaram a viticultura local e elevaram a reputação da região, principalmente apostando nas uvas locais e não em castas internacionais.
No ano de 2000, o Governo Catalão concedeu ao Priorat a classificação de Denominació d’Origen Qualificada (DOQ), e, em 2009, o Governo espanhol reconheceu a região em nível nacional como Denominação de Origem Calificada (DOCa), consolidando sua posição entre as mais prestigiadas áreas vitivinícolas do mundo.
A região apresenta clima mediterrâneo com influência continental, marcado por verões quentes e secos, e invernos frios.
O Priorat, protegido por cadeias montanhosas como a Serra de Montsant ao norte e a Serra de Llaberia ao sul, abriga vinhedos em paisagens dramáticas (viticultura de montanha) plantados em encostas íngremes e terraços chamados em catalão de “costers”. Olhando o mapa, é como se o Priotato fosse um grande coliseu e as montanhas em volta suas paredes.
A viticultura combina vinhas antigas em vaso (gobelet) e plantações mais recentes em espaldeira, quando possível. Ambas as formas de condução da vinha se caracterizam pela baixa densidade e rendimentos reduzidos, até mesmo pela topografia local.
O relevo é cortado pelos rios Siurana e seus afluentes, que descem até o Ebro, enquanto o vento Cierzo contribui para a secagem do ambiente, acelerando a evaporação da umidade.
Há apenas 2.237 hectares de vinhedos plantados, contando a região com cerca de 500 viticultores e 116 vinícolas.
Um dos grandes destaques são os solos do Priorat, denominados “Llicorella”, compostos por xisto e ardósia, e ricos em quartzo. São finos e quebradiços, com partículas de mica que refletem luz e calor, favorecendo a maturação das uvas.
Entre as variedades tintas, destacam-se a Garnaxta (Garnacha), de brotamento precoce e amadurecimento tardio, produtiva e resistente ao calor e ao vento, com elevado teor alcoólico, acidez moderada e taninos baixos, além de notas de frutas vermelhas e especiarias, tendente à oxidação; e a Carinyena/Samsó (que é a Cariñena ou Mazuelo) de ciclo longo, exigindo clima quente, com alta acidez, taninos e pigmentação elevados, oferecendo aromas de frutas vermelhas e pretas, especiarias e ervas secas.
Também são autorizadas as uvas Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah, Pinot Noir, Ull de Llebre (Tempranillo), Picapoll Tinto e Garnacha Peluda, dentre outras.
Entre as brancas, predominam Garnatxa Blanc e Macabeo, além das uvas Pedro Ximénez, Chenin Blanc, Viognier, Moscatel de Alejandría, Moscatel a Grano Menudo, Pansal (Xarel.lo) e Picapoll Blanco.
Nos estilos de vinhos, o Priorato produz majoritariamente tintos (95%) seguidos por pequenas proporções de brancos (4%), rosados (1%) e outros, como os tradicionais “rancios”, um vinho em estilo oxidativo.
Ao contrário de grande parte das DOs espanholas, como Ribera del Duero e Valedepeñas, ou a DOCa Rioja, o Priorato não utiliza um sistema de classificação por tempo de barrica, como Crianza, Reserva e Gran Reserva.
Em 2002, o Priorato foi a primeira região a introduzir uma categoria classificatória baseada na propriedade, o Vi (vi é a palavra catalã para vinho) de Finca (posteriormente substituída em 2019), e depois em 2009 o Vi de Vila.
Em 2019, o Conselho Regulador do Priorato aprovou um novo sistema de classificação com inspiração borgonhesa chamado de “El Nomes de la Terra”, criando uma pirâmide qualitativa, uma verdadeira revolução nas classificações espanholas, buscando destacar a complexidade do rico terroir local.
O responsável pela criação de tal classificação foi o pioneiro Álvaro Palacios, que juntamente com seu sobrinho Ricardo Pérez Palacios, fez algo similar no Bierzo.
Uma das vantagens do Priorat para viabilizar essa nova classificação foi o fato de a região ter sido mapeada no passado por razões militares, o que permitiu a identificação de cada parcela.
Dessa forma, o Priorat passou a ostentar uma pirâmide de qualidade muito clara.
No topo está o Gran Vinya Classificada, o mais alto nível de reconhecimento, vinhedos excepcionais. Uma categoria equivalente aos Grand Crus da Borgonha. Rendimentos máximos de 6 mil kg/ha para brancos e 3 mil para tintos. 80% dos vinhedos com mínimo de 35 anos de idade e o restante com pelo menos 10 anos. Deve conter no mínimo 90% Garnatxa e/ou Carinyena/Samsó, podendo ser monovarietal. São poucos atualmente: L’Ermita e Les Manyes (Álvaro Palácios), Mas de la Rosa (Vall Llach e Torres), 1902 (Mas Doix).
Abaixo está a Vinya Classificada, que é um pouco mais abrangente. Vinhos de um vinhedo individual dentro de um “paratge” e reconhecido como excepcional, o equivalente ao Premier Cru da Borgonha. Rendimentos máximos de 6 mil kg/ha para brancos e 3 mil para tintos. 80% dos vinhedos com mínimo de 20 anos de idade e o restante com pelo menos 5 anos. Deve conter no mínimo 60% Garnatxa e/ou Carinyena/Samsó, podendo ser monovarietal. Exemplos: Clos Mogador, Mas Doix, Mas d’en Gil Coma Blanca, Mas d’en Gil Clos Fontà.
Em seguida, temos o Vi de Paratge, que é um vinho de uma única localização (em vez de um vinhedo específico), com inspiração no conceito de lieu-dit da Borgonha, embora com diferenças, já que, ao contrário da Borgonha, não são parcelas dentro das Gran Vinyas Classificadas ou das Vinyas Classificadas. Há 459 “paratges”. Rendimentos máximos de 6 mil kg/ha para brancos e 4 mil para tintos. 90% dos vinhedos com mínimo de 15 anos de idade e o restante com pelo menos 5 anos. Deve conter no mínimo 60% Garnatxa e/ou Carinyena/Samsó.
Mais abaixo, temos a categoria Vi de Vila, que equivale a vinhos oriundos de vinhedos situados nos limites de uma das 12 vilas da região, com rendimentos máximos de 7 mil kg/ha para brancos e 5 mil para tintos. 90% dos vinhedos devem ter no mínimo 10 anos de idade, e o restante com pelo menos 5 anos.
As 12 vilas do Priorato são: Bellmunt, El Lloar, Escaladei, Gratallops, La Morera de Montsant, La Villela Alta, La Vilella Baixa, Poboleda, Porrera, Torroja del Priorat, Masos de Falset e Solanes del Molar. Essa talvez seja a categoria mais interessante para entender as diferenças de terroir,e as uvas mais vocacionadas. Por exemplo, no terroir de Porrera, a uva Carinyena/Samsó se sobressai, enquanto em Gratallops a Garnatxa impera. Ou ainda pensar que os vinhos com a Garnatxa de Escaladei são mais frescos e menos potentes que os vinhos de El Lloar ou de Gratallops; ou que os vinhedos de Bellmunt recebem muito mais influência mediterrânea do que os vinhedos de La Villela Alta e La Vilella Baixa, que estão mais ao centro da região.
Na base da pirâmide qualitativa, há uma categoria geral para Priorat, vinhos regionais elaborados com uvas de qualquer lugar da região e que, não raro, apresentam alta qualidade por um preço mais acessível.
Por fim, para serem rotulados como vinyes velles (vinhas velhas), as vinhas devem ter mais de 75 anos, bem mais rigorosa do que a definição do Old Vine Registry e de outras organizações, que exigem um mínimo de 35 anos. Essa rotulagem pode aparecer em qualquer uma das categorias acima.
Uma região mágica com vinhos espetaculares, e que merece ser visitada por alguns dias e que não me decepcionou!
Salú!