Sábado, 15 de agosto de 2026
O Weingut Markus Molitor é um dos produtores de maior prestígio do Vale do Mosel, na Alemanha, e tornou-se sinônimo de extrema qualidade ao elaborar vinhos que expressam com precisão as nuances e variações dessa tradicional região vitivinícola germânica.
Por oito gerações, a família Molitor cultivou vinhedos em Bernkastel e Wehlen, no Vale do Mosel, partindo de uma propriedade com apenas 1,5 hectare de vinhas. Em 1984, aos vinte anos de idade, Markus Molitor assumiu a vinícola familiar e a rebatizou como Weingut Markus Molitor — até então conhecida como Weingut Molitor ou Haus Klosterberg, nome de sua sede histórica.
Na época, o objetivo de Markus Molitor era ambicioso: resgatar a reputação e a qualidade dos vinhos elaborados com a uva Riesling na região, mostrando sua complexidade e longevidade, como eram reconhecidos no final do século XIX, a era de ouro do Mosel.
Sua filosofia se baseou em um trabalho meticuloso no vinhedo com seleção manual das uvas na colheita, e a menor intervenção possível buscando a pura expressão da origem dos vinhos.
Dos 1,5 hectares que a família Molitor possuía em 1984, a vinícola adquiriu ao longo dos anos diversas parcelas de vinhedos no Mosel e no Saar (vale adjacente e que é oficialmente englobado pela região vitivinícola do Mosel).
Nos anos 2000, o Weingut Markus Molitor possuía 40 hectares de vinhedos próprios; atualmente, conta com aproximadamente 120 hectares distribuídos por cerca de duas dezenas de vilarejos, incluindo parcelas em alguns dos vinhedos mais emblemáticos da região. Desse conjunto, 75% se situam no Médio Mosel (Mittelmosel), e o restante, no Vale do Saar.
Entre as parcelas do Weingut Markus Molitor no Mittelmosel, merecem destaque as seguintes, indicadas primeiro pelo nome do vilarejo e, em seguida, pelo vinhedo:
• Wehlen: Wehlener Klosterberg (sede da vinícola); Wehlener Sonnenuhr (parcelas de xisto azul muito íngremes);
• Zeltingen-Rachtig: Zeltinger Sonnenuhr e Zeltinger Himmelreich (algumas das vinhas mais velhas não enxertadas da região);
• Bernkastel-Kues: Bernkasteler Badstube, Bernkasteler Graben e Bernkasteler Doctor (apenas 0,13 hectare dentro desse célebre vinhedo);
• Ürzig: Ürziger Würzgarten (conhecido pelo solo de xisto avermelhado);
• Erden: Erdener Treppchen e Erdener Prälat;
• Graach: Graacher Himmelreich e Graacher Domprobst;
• Kinheim: Kinheimer Hubertuslay.
Por outro lado, no Vale do Saar se destacam:
• Ockfen: Ockfener Bockstein (encosta em forma de anfiteatro, muito ensolarada);
• Niedermennig: Niedermenniger Herrenberg e Niedermenniger Sonnenberg;
• Serrig: Domäne Serrig, propriedade adquirida em 2016, antiga vinícola estatal prussiana com monopólio do histórico vinhedo Serriger Vogelsang (cerca de 22 hectares).
Em 2015, os esforços de Markus Molitor foram finalmente coroados. Naquele ano, o renomado crítico Stephan Reinhardt, correspondente para a Alemanha da publicação The Wine Advocate, de Robert Parker, atribuiu a nota máxima de 100 pontos a três vinhos do Weingut Markus Molitor, todos da safra 2013:
(1) Wehlener Sonnenuhr Riesling Auslese;
(2) Zeltinger Sonnenuhr Riesling Auslese;
(3) Ürziger Würzgarten Riesling Auslese.
O feito, inédito para o vinho alemão, catapultou Markus Molitor à condição de um dos grandes produtores do país.
Um ponto a destacar é o sistema próprio da vinícola, utilizando cores diferentes nas cápsulas:
• Cápsula Branca: Rieslings secos;
• Cápsula Verde: Rieslings off-dry (feinherb, termo comumente usado, porém não previsto em legislação);
• Cápsula Dourada: Rieslings frutados e doces, como Spätlesen, Auslesen, Beerenauslesen e Trockenbeerenauslesen;
• Cápsula Vermelha: vinhos elaborados com a uva Spätburgunder (Pinot Noir), valendo lembrar que Markus Molitor é amplamente reconhecido como um dos grandes impulsionadores da redescoberta e replantio da Pinot Noir/Spätburgunder na região do Mosel, uma área historicamente dominada por vinhos brancos, especialmente da casta Riesling;
• Cápsula Amarela: demais vinhos brancos, como Weissburgunder (Pinot Blanc) e Chardonnay.
Aqui vale uma observação. Conforme tratado em artigo anterior, a legislação alemã sofreu alterações recentes e profundas, aplicáveis apenas aos vinhos produzidos a partir de 2026; por isso, seus efeitos serão percebidos em plenitude apenas nos próximos anos.
Portanto, ainda é possível encontrar vinhos Prädikate das categorias Spätlese e Auslese secos ou off-dry. Com a nova legislação, tais termos serão reservados apenas a vinhos doces. Quiçá essa última assertiva gere certa surpresa no leitor, que pode se indagar: “mas os vinhos Spätlese e Auslese não seriam sempre doces?”. Em verdade, essa é uma confusão comum.
O antigo sistema de classificação dos vinhos alemães Prädikatswein mede a maturidade da uva na colheita, isto é, o teor de açúcar no mosto, e não a doçura do vinho final. No novo sistema, a classificação passará a considerar tanto o momento da colheita quanto o perfil do produto final. Ainda assim, é o processo de vinificação escolhido pelo enólogo que define se o vinho será seco, meio-seco ou doce.
Se a fermentação for interrompida antes do fim, parte do açúcar da uva permanece não fermentado, gerando um vinho doce ou off-dry (feinherb / halbtrocken), geralmente com menor teor alcoólico. Por outro lado, se quase todo o açúcar presente no mosto for transformado em álcool, o vinho resultante será seco (trocken), exibirá maior teor alcoólico e tenderá a ser mais encorpado.
Portanto, um vinho Spätlese ou Auslese pode ser completamente seco (trocken), e terá maior intensidade, corpo e complexidade de aromas devido à maturação avançada das uvas.
Contudo, nem todo produtor explicita essa informação no rótulo ou no contrarrótulo; daí a genialidade do uso de cápsulas com cores diferentes pelo Weingut Markus Molitor, que permite identificar de imediato o estilo do vinho.
Em julho passado, tive o privilégio de visitar o Weingut Markus Molitor e degustar diversos de seus vinhos, uma verdadeira aula sobre os vinhos do Mosel.
A seguir os vinhos degustados com algumas singelas observações:
• Pinot Blanc Einstern 2023 (cápsula amarela): logo no primeiro vinho, já fiquei impressionado pela qualidade, muita pureza e precisão;
• Pinot Blanc Wehlener Klosterberg 2018 (cápsula amarela): mais concentrado que o anterior, com textura cremosa e acidez integrada;
• Pinot Noir Einstern 2020 (cápsula vermelha): Pinot Noir de inspiração borgonhesa, com destaque para frutas vermelhas;
• Pinot Noir Zeltinger Schlossberg 2017 (cápsula vermelha): mais complexo que o anterior, com aromas de frutas vermelhas, cereja preta, cogumelos e ervas secas, demonstrando o potencial da Pinot Noir no Mosel;
• Riesling Schiefersteil 2022 (cápsula branca): Riesling seco e extremamente clássico do Mosel, acidez cortante e equilibrada;
• Riesling Graacher Domprobst Kabinett 2020 (cápsula branca): delicado e vibrante, combinando notas cítricas e florais com um toque de açúcar residual;
• Riesling Alte Reben Mosel 2023 (cápsula branca): elaborado com vinhas de idade entre 60 e 80 anos, denso e profundo, unindo grande concentração de frutas maduras com um final salino e elegante;
• Riesling Wehlener Klosterberg Auslese – Edition 19 2018 (cápsula branca): Auslese seco, encorpado e com acidez equilibrada, destacando aromas de damasco;
• Riesling Kinheimer Hubertuslay Auslese 2020 (cápsula branca): Auslese rico e de altíssimo nível, expressando frutas tropicais, acidez alta e com excelente precisão;
• Riesling Zeltinger Schlossberg Auslese 2018 (cápsula branca): vinho profundo e estruturado, com notas cítricas, persistência impressionante e enorme potencial de guarda; inesquecível, foi um dos vinhos que trouxe comigo;
• Zeltinger Sonnenuhr Auslese 2020 (cápsula branca): outro Auslese seco com acidez vibrante, de enorme complexidade, e um dos preferidos dos degustados, mais um que veio na mala;
• Riesling Zeltinger Himmelreich Kabinett 2024 (cápsula verde): exemplar no estilo feinherb (meio-seco), muito gastronômico e com equilíbrio perfeito entre o frescor cítrico e as notas de fruta;
• Riesling Graacher Himmelreich Auslese 2018 (cápsula verde): Auslese extremamente elegante, que contrapõe certo nível de doçura moderada com grande tensão no paladar, um dos preferidos da degustação;
• Riesling Ockfener Bockstein Kabinett 2024 (cápsula dourada): a porta de entrada para a linha de cápsula dourada, de perfil fruchtsüß (doce), destacando frutas amarelas e cítricas maduras;
• Riesling Wehlener Klosterberg Auslese 2003 (cápsula dourada): Um dos ápices da degustação. Vinho profundamente evoluído e memorável, de textura sedosa, final longo e aromas complexos de mel, cera de abelha e açafrão, envolvidos em uma acidez marcante. Longo potencial de guarda!
• Riesling Bernkasteler Graben Trockenbeerenauslese 2006 (cápsula dourada): ainda jovem aos 20 anos de idade, memorável, de textura sedosa, final longo e aromas complexos de mel, damasco, pêssegos maduros e uma acidez incrível. É com esse tipo de vinho — e com o anterior — que entendemos aquilo que se estuda sobre como a acidez equilibrada pela doçura cria vinhos longevos, complexos e inesquecíveis.
O Weingut Markus Molitor foi a primeira vinícola que visitei no Vale do Mosel — e simplesmente inesquecível!
Prost e Zum Wohl!