Quinta-feira, 27 de agosto de 2026
Recentemente, em uma viagem pela Alemanha e pela Áustria, tive a oportunidade de acrescentar mais um país ao passaporte: Liechtenstein.
O pequeno principado de Liechtenstein situa-se entre a Suíça e a Áustria, no vale do rio Reno. Possui apenas 160 km², sendo um dos menores países da Europa, com uma população de aproximadamente 40 mil habitantes. Sua capital é Vaduz, sede da família principesca e do governo, e segunda maior cidade do país, com cerca de 5 mil habitantes. O idioma oficial é o alemão e a moeda é o franco suíço.
A família Liechtenstein existe desde a Idade Média e deu o seu próprio nome ao país. Em 1699, a família comprou o senhorio de Schellenberg e, em 1712, o condado de Vaduz. O imperador Carlos VI, em 1719, unificou esses territórios e criou o Principado de Liechtenstein. Em 1806, Liechtenstein se tornou um Estado soberano, durante as transformações e mudanças no Sacro Império Romano-Germânico.
O pequeno país acabou esquecido por Napoleão e assim conseguiu manter sua independência. Após a Primeira Guerra Mundial, aproximou-se economicamente da Suíça.
Liechtenstein é uma monarquia constitucional hereditária, mas atribui ao príncipe poderes relativamente fortes em comparação com outras monarquias europeias. O chefe de Estado é o príncipe, enquanto o chefe de governo é o primeiro-ministro, responsável pela administração diária do país. O governo é composto por cinco ministros.
Apesar de seu tamanho diminuto, Liechtenstein possui uma das maiores rendas per capita do mundo. Sua economia baseia-se em serviços financeiros, indústrias de alta tecnologia, turismo, entre outras atividades.
Assim, não apenas em busca de um novo carimbo no passaporte, mas também de novos vinhos, fiz um bate e volta de um dia a partir de Feldkirch, na Áustria, cidade localizada a apenas 12 minutos de Vaduz.
Uma curiosidade é que, para chegar da Áustria a Vaduz, você pode ir diretamente ou também passar pela Suíça. Ou seja, em cerca de 12 minutos, é possível passar por três países.
O centro histórico de Vaduz é relativamente pequeno, com alguns museus importantes.
Porém, em Vaduz fica a sede de uma vinícola, a Hofkellerei des Fürsten von Liechtenstein, ou a adega do Príncipe de Liechtenstein.
A Hofkellerei des Fürsten von Liechtenstein é a vinícola da família principesca de Liechtenstein. A família tem ligações com a viticultura e a produção de vinhos desde o século XV, quando adquiriu propriedades na região de Niederösterreich, a Baixa Áustria.
Atualmente, a vinícola produz vinhos na Áustria, especificamente na DAC Weinviertel, em Niederösterreich, e na DAC Leithaberg, em Burgenland. Também produz em Liechtenstein, onde mantém, em Vaduz, seu histórico vinhedo Herawingert, além de vinhedos na AOC Eschen, uma das denominações de origem controlada do Principado de Liechtenstein, localizada na parte norte do país, no Vale do Reno, ao pé dos Alpes.
Em Weinviertel, as instalações da vinícola situam-se em Wilfersdorf, região caracterizada por clima continental relativamente fresco, em razão da influência alpina, e por solos de loess calcário, com boa retenção hídrica, o que proporciona maturação lenta das uvas. Ali se encontram alguns dos principais vinhedos do portfólio da vinícola: Karlsberg, Johannesbergen e Herrnbaumgarten. Na Niederösterreich, os principais vinhos produzidos pela vinícola são brancos, sobretudo a partir das uvas Grüner Veltliner e Riesling.
Ainda na Áustria, a vinícola produz vinhos também na DAC Leithaberg (Burgenland), principalmente vinhos elaborados com as uvas tintas Blaufränkisch (leia aqui sobre essa uva) e Zweigelt.
Importante destacar que, até 1945, boa parte da produção da vinícola era concentrada em Valtice, Feldberg, que hoje fica na Morávia Tcheca. Após a Segunda Guerra Mundial, no entanto, o núcleo da atividade vitivinícola foi reconstruído, passando principalmente para Weinviertel.
Em Vaduz, sede da vinícola, situa-se uma das joias de seu portfólio de vinhedos: o Herawingert, considerado o vinhedo mais importante e tradicional do Principado de Liechtenstein. Ele possui cerca de quatro hectares contínuos, fica perto do centro histórico de Vaduz e apresenta exposição sudoeste, em uma área de clima quente, protegida dos ventos frios.
Chegamos até a sua sede caminhando pelo vinhedo Herawingert.
Na Hofkellerei des Fürsten von Liechtenstein há uma visita guiada por dia. Porém, o visitante pode simplesmente degustar praticamente todos os vinhos produzidos pela vinícola em taças, criando seu próprio flight.
Optamos por provar os vinhos disponíveis produzidos em Liechtenstein e um vinho austríaco da DAC Leithaberg elaborado com a Blaufränkisch, todos excelentes.
Os vinhos degustados foram os seguintes:
• Hofkellerei des Fürsten von Liechtenstein Cuvée Blanc 2024 (Liechtenstein): Sem passagem em madeira, é um branco seco, de entrada, elaborado com as uvas Riesling, Sylvaner (Silvaner) e Seyval Blanc. Aromas de maçã verde, pera, frutas cítricas, flores brancas e ervas frescas. Em boca, confirma-se os aromas, apresenta corpo médio, acidez média +, porém com pouca persistência no final.
• Hofkellerei des Fürsten von Liechtenstein Pinot Noir AOC Eschen 2023 (Liechtenstein): Amadurecimento parcial em grandes tonéis de carvalho, conferindo um toque aromático discreto da madeira, sem dominar a fruta. Apresenta aromas de cerejas vermelhas, framboesa e morangos, além de notas de especiarias, que se confirmam em boca. Tem corpo médio, taninos delicados, acidez média, sendo muito elegante e equilibrado, valorizando a fruta.
• Hofkellerei des Fürsten von Liechtenstein Herawingert Pinot Noir 2022 (Liechtenstein): 12 meses de estágio em barricas de carvalho francês de usos variados. Da AOC Vaduz, é elaborado a partir do histórico vinhedo Herawingert, com aromas de cereja vermelha madura e frutas vermelhas, como groselha e framboesa, além de notas de violeta, o que se confirma em boca. Tem corpo médio, mais concentrado que o vinho anterior, e final longo. Muito elegante e o preferido dos três vinhos de Liechtenstein.
• Hofkellerei des Fürsten von Liechtenstein Leithaberg DAC Blaufränkisch 2020: Estágio de 24 meses em barricas de carvalho francês de 500 litros. Elaborado com a uva tinta Blaufränkisch, da DAC Leithaberg, uma das melhores denominações austríacas para essa variedade, com vinhedos em solos calcários próximos ao Lago Neusiedl. Aromas de amora, cereja preta, ameixa e notas de pimenta preta e grafite. Em boca, se sobressaem as frutas negras e um sutil toque de pimenta. Apresenta corpo médio +, taninos médios +, bem integrados à acidez média, e longo final. Excelente vinho, que apresenta a tipicidade da uva Blaufränkisch e expressa bem o terroir da DAC Leithaberg.
Uma nova região de vinhos descoberta, com ótimas surpresas! Prost! Zum Wohl!