Sexta-feira, 17 de abril de 2026
Quando pensamos em vinhos doces espanhóis, quase sempre o que vem à mente são os vinhos fortificados da Andaluzia, elaborados com as uvas Pedro Ximénez e Moscatel de Alexandria, como alguns estilos de Jerez, os vinhos de Montilla Moriles ou, ainda, os da DO Málaga, como o Pajarete.
Contudo, existe um vinho doce (ou semi seco) histórico produzido na DO Alicante, na região de Valência: o Fondillón.
Mencionado em clássicos da literatura como Robinson Crusoé, de Daniel Defoe (1719), ou por Shakespeare em The Merry Wives of Windsor (1602), o Fondillón era então referido como o “vinho (doce) de Alicante”, o que demonstra o prestígio de que gozava à época.
Alguns chegam a afirmar que o “vinho de Alicante” é mencionado no clássico O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas; contudo, confesso que consultei algumas edições da obra e não encontrei tal referência.
Há ainda relatos segundo os quais os navios da expedição espanhola comandada por Fernão de Magalhães, realizada entre 1519 e 1522 com o objetivo de alcançar as Ilhas das Especiarias (Molucas, atual Indonésia), teriam levado consigo garrafas de Fondillón — o vinho doce de Alicante —, o que reforça seu caráter histórico.
Apesar de sua reputação secular, o Fondillón praticamente desapareceu a partir do século XIX por razões diversas, tais como a competição com outros vinhos de sobremesa e o êxodo rural decorrente da industrialização, entre outros fatores.
Mesmo assim, muitas barricas desse vinho singular foram preservadas em antigas adegas, aguardando seu retorno. Foi nesse contexto que, ao final da década de 1940, Salvador Poveda Luz, cuja família possuía uma bodega em Monóvar, iniciou o processo de recriação do Fondillón, guiado pelas tradições locais e pelos exemplares remanescentes então disponíveis. O Fondillón renascia!
O Fondillón não é um vinho fortificado, e esse é um ponto essencial, especialmente para diferenciá lo dos vinhos de sobremesa da Andaluzia. Ele é elaborado exclusivamente com uvas Monastrell super maduras, que atingem condições ideais em anos de verões longos e baixa umidade. As uvas permanecem mais tempo na videira ou são expostas ao sol, com o objetivo de concentrar os açúcares.
A fermentação cessa naturalmente antes que todos os açúcares sejam convertidos em álcool, resultando em um vinho com açúcar residual. O teor alcoólico natural mínimo é de 16% em volume, podendo aumentar em razão da concentração ao longo do envelhecimento.
O vinho amadurece e é intencionalmente oxidado por um período mínimo de dez anos, em um sistema de solera composto por grandes tonéis de carvalho, que podem alcançar até 1.200 litros de capacidade.
A solera é um sistema dinâmico de mistura fracionária, formado por vários níveis de barricas. Cada nível representa vinhos de idades distintas: o vinho mais velho situa se, tradicionalmente, na parte inferior, enquanto o mais jovem permanece na parte superior. Apenas uma parcela do vinho mais antigo é retirada para engarrafamento em determinado momento, sendo o volume correspondente reposto com vinho da barrica imediatamente superior, e assim sucessivamente, até que o nível mais jovem seja completado com o vinho da safra corrente. Desse modo, os vinhos jovens são progressivamente integrados aos mais antigos, preservando o estilo e o caráter da solera.
Em termos de doçura, o Fondillón pode oscilar entre um vinho doce e um vinho meio seco, a depender do grau de maturação das uvas. Seu estilo lembra os tradicionais Vins Rancios, típicos de regiões de Valência e da Catalunha, que também transitam entre o seco e o doce.
O Fondillón, contudo, distingue se pelo uso exclusivo da uva Monastrell, em contraste com as Garnachas branca e tinta e com a variedade branca Macabeo, frequentemente utilizadas nos Vi Ranci (“vinos rancios”). Soma se a isso sua maior complexidade e profundidade, decorrentes do longo período de envelhecimento e da utilização do sistema de solera.
O Fondillón integra a DO Alicante, que produz diversos outros estilos de vinho, representando, entretanto, apenas uma ínfima parcela da produção total dessa denominação valenciana.
Atualmente, o número de produtores de Fondillón permanece reduzido, embora o vinho venha sendo progressivamente redescoberto por enófilos. Entre eles destacam se: Brotons & Culébron; Bodegas Bocopa (com o Laudum Fondillón); Luis XIV Colección de Toneles Centenarios (David Carbonell); MG Wines – Bodegas Monóvar, que adquiriu os estoques do pioneiro Salvador Poveda; e Primitivo Quiles, que elabora Fondillón a partir de uma solera datada de 1948.
Um tesouro a ser preservado — e descoberto. ¡Salud!