Blaufränkisch, Kékfrankos, Lemberger… uma uva a descobrir
Blaufränkisch, Kékfrankos, Lemberger… uma uva a descobrir
Segunda-feira, 23 de março de 2026
O universo do vinho é vasto, diverso e está sempre nos reservando surpresas, novos mundos a explorar. Na verdade, é justamente nessa infinita possibilidade de descobertas — de novas uvas, regiões e tradições — que reside a minha paixão pelos vinhos.
Recentemente, visitei Budapeste, na Hungria, e Viena, na Áustria, onde explorei a cena local de vinhos. Inicialmente, imaginei que minhas degustações se concentrariam sobretudo nos brancos, como os elaborados com Furmint, na Hungria, e com Grüner Veltliner, na Áustria — uvas que se tornaram verdadeiros símbolos vitivinícolas de seus respectivos países. Evidentemente, tive a oportunidade de provar diversos rótulos produzidos com essas cepas.
Entretanto, acabei degustando também inúmeros vinhos tintos, de diferentes regiões de ambos os países, o que me levou à descoberta de dois novos e complexos universos do mundo do vinho: a Hungria e a Áustria sob a ótica de seus tintos.
E foi nesse processo de exploração que me deparei com vinhos elaborados a partir de uma casta que até então eu praticamente só conhecia dos livros e da qual havia provado pouquíssimos exemplares: a Blaufränkisch, ou, em húngaro, Kékfrankos. Neste artigo, utilizarei a primeira denominação, considerada a mais “internacional” pelos especialistas.
© Anna Stoecher
A Blaufränkisch é uma uva tinta tradicional da Europa Central, derivada, conforme apontam estudos de DNA, da cepa Gouais Blanc. Sua origem mais provável situa-se na Dalmácia, região no extremo sul da Croácia e em Montenegro, ao longo do Mar Adriático, área que integrou o antigo Império Austro-Húngaro.
O termo Fränkisch — e suas variações em diferentes idiomas — passou a ser utilizado a partir da Idade Média para designar variedades consideradas de qualidade superior, em oposição às uvas do grupo Heunisch.
A Blaufränkisch é, aliás, uma das castas europeias com o maior número de sinônimos, variando conforme o país:
Áustria: Blaufränkisch
Hungria: Kékfrankos, também chamada Nagyburgundi
Alemanha: Lemberger ou Blauer Limberger
Croácia: Frankovka ou Borgonja
Eslováquia: Frankovka Modrá
República Tcheca e Sérvia: Frankovka
Eslovênia: Frankovka Črna
Romênia: Burgund Mare
Bulgária: Gamé (não devendo ser confundida com a Gamay Noir)
Itália: Francova
Trata-se de uma uva de produção vigorosa, o que exige controle rigoroso dos rendimentos. Apresenta brotamento precoce e maturação tardia, demandando, portanto, locais com climas relativamente quentes, verões longos e secos e boa incidência solar. É vulnerável tanto ao míldio quanto ao oídio.
© Nicole Heiling / Weingut Weninger
A Blaufränkisch é capaz de originar vinhos de amplo espectro estilístico, fortemente influenciados pelo terroir, o que se reflete diretamente na qualidade final dos exemplares. De modo geral, apresenta aromas de frutas pretas, como amora e cereja, além de notas apimentadas e de especiarias. Caracteriza-se ainda por elevada acidez e taninos médios a médios (+).
Em função das variações de terroir, pode dar origem desde vinhos mais leves, frescos e frutados até exemplares profundos, concentrados, apimentados, estruturados e com grande aptidão ao envelhecimento, especialmente quando submetidos ao amadurecimento em carvalho.
A Blaufränkisch desempenha um papel fundamental na identidade vitivinícola da Europa Central, sobretudo na Áustria e na Hungria, países nos quais assume protagonismo e atinge suas melhores expressões.
Na Áustria, é a segunda uva tinta mais plantada do país, superada apenas pela Zweigelt. Os vinhos podem ser monovarietais ou parte de uma assemblage com outras castas, em especial com a Zweigelt. É plantada principalmente na região de Burgenland, com destaque para as DACs (Districtus Austriae Controllatus), denominações de origem protegida do país: Mittelburgenland, Neusiedlersee, Leithaberg e Eisenberg.
Nessas DACs, a Blaufränkisch origina vinhos estruturados, elegantes e frequentemente longevos, existindo as categorias Classic (sem passagem por madeira) e Reserve (com estágio em carvalho).
Na Hungria, onde é conhecida como Kékfrankos (kék = azul, blau em alemão; Frankos = Fränkisch), é considerada uma das principais uvas tintas do país. Não raramente, participa de cortes com Merlot, Cabernet Sauvignon e outras castas, sendo também a espinha dorsal do tradicional Egri Bikavér (“Sangue de Touro de Eger”).
Além de Eger, a Kékfrankos assume papel de destaque nas regiões de Kunság, Sopron (na fronteira com a Áustria), Villány e Tolna, esta última sub-região de Pannon.
Uma curiosidade digna de nota é o trabalho do respeitado produtor Franz Weninger, que possui vinhedos tanto em Mittelburgenland, na Áustria, quanto do outro lado da fronteira, em Sopron, na Hungria, produzindo vinhos tanto com a Blaufränkisch quanto com a Kékfrankos.
Na Alemanha, onde é mais conhecida como Lemberger, a casta origina vinhos bastante distintos dos austríacos e húngaros, em geral com menos corpo, maior ênfase na fruta e menor complexidade. É cultivada sobretudo em Württemberg, nas proximidades de Stuttgart.
Na Eslováquia, sob o nome Frankovka Modrá, é a uva tinta mais plantada do país, representando cerca de 9% dos vinhedos, e dá origem a vinhos em estilo mais próximo dos húngaros.
A Blaufränkisch também está presente na Croácia, na Romênia — especialmente em Dealu Mare e Ștefănești —, no norte da Itália, na Bulgária, na República Tcheca e na Sérvia. Fora da Europa, há plantios pontuais no Canadá, nos Estados Unidos (Finger Lakes e Long Island) e em outros países, geralmente em caráter experimental e sem grande expressividade comercial.
© Anna Stoecher
A casta teve ainda papel relevante como genitora de diversas outras variedades, como Zweigelt, André, Blaufrüger, Acolon, Cabernet Mitos e Cabernet Cubin, o que reforça sua importância histórica e genética.
Por fim, recentemente, surgiu uma iniciativa conjunta de produtores de vinhos da Hungria, Áustria, Alemanha, República Tcheca, Eslováquia, Croácia, Eslovênia e Romênia autointitulado “United Nations of Blaufränkisch” para promover essa cepa tão especial, adotando como slogan “what was once divided by the Iron Curtain is now United by Blaufränkisch wine”. E em maio desse ano, em Viena, diversos produtores desses países, representando mais de 20 regiões, apresentarão seus vinhos na feira VieVinum 2026, no Palácio Hofburg, uma oportunidade única.
Zum Wohl! Egészségedre!